05 Março 2012

Impressões digitais



Eu realmente acho a internet uma coisa fantástica. Principalmente quando penso sobre o quanto as gerações anteriores a nossa lutaram pelo direito à liberdade de expressão. Mas o que mais penso, testo e explico, ultimamente, é: que diabos temos feito com ela? Este lugar, chamado blogosfera, onde todo mundo fala o que quer (não se sabe por quanto tempo) tem sido, muitas vezes, redudante, fazendo eco ao que sai no jornal e ao que passa na tevê. Afinal, não era para ser o contrário? A blogosfera não deveria servir como uma via de expressão paralela ou oposta a tão criticada "grande mídia"?

Nesse sentido tenho observado a página principal do Wordpress, onde se destacam, diariamante, os artigos "mais lidos", ou "mais populares". Para quem não conhece, o Wordpress é uma das plataformas gratuitas de  publicação de blogues. Para navegar pelos destaques podemos escolher uma língua e eu costumo dar uma olhada nos artigos em português do Brasil, inglês e francês. Hoje resolvi fazer a lista dos artigos mais lidos nestas três línguas, os quais estão listados abaixo, mais um em espanhol, El triunfo de los mediocres, cujo link encontra-se na foto acima. Note-se que não se trata de uma seleção feita por mim, mas da seleção do Wordpress, segundo eles, conforme a popularidade de cada artigo.

Artigos mais populares de hoje no Wordpress, em português do Brasil: 
comentário 1: "noossa véi"; comentário 2: "nosa odiei"

Artigos mais populares de hoje no Wordpress, em língua inglesa: 

An afternoon with Laura


Artigos mais lidos no dia de hoje no Wordpress - em francês:


Sarkô[zy] no blog Zé Redac

(A semana em que Nicola Sarkozy perdeu a campanha?)
(Sarkozy: minha esposa está inquieta)
(União dos eleitores russos na França)
(Putine e seu programa 2012 para a Rússia)  
(O golpe de Estado democrático)
(A sobrevivência do Servette Futebol Clube)
(sobre o movimento basco)
(Edith e Daniel no inferno sírio: historia de uma falsificação)

Concluimos então que: enquanto os franceses falam sobre política, os brasileiros fazem eco ao que se fala na televisão, e os americanos falam de si mesmos. E para poupar um pouco mais do seu tempo informo que esta lista se repetirá diariamente, de modo idêntico, assim como as notícias da tevê - não é interessante como todos os dias acontecem sempre as mesmas coisas? Parece o mito do eterno retorno! Contudo, isto não significa que os franceses (ou os francófonos) sejam dodecafônicos, já que falar sobre política é senso comum entre eles. Muito embora as melhores sacadas venham deles, conforme acabo de ler num destes blogues em questão: 

"Toute écriture, qu´elle le vuille ou non, est politique"
(Toda escrita, quer queira, quer não, é política)
Philipe Soller

Sakô?

02 Março 2012

Televisão


Acho que a internet põe fim àquela velha questão sobre se a tevê só tem porcaria porque gostamos de lixo, ou se somos bestas porque a televisão é uma porcaria. Porque mesmo quando se tem todas as opções do mundo, muitas vezes se opta por clicar em, ou (re) produzir, as piores besteiras. Veja, por exemplo, a audiência dos videos mais vistos no youtube... Não lembra mesmo aquela frase que diz que "mentes pequenas discutem pessoas, e grandes mentes discutem ideias"?

25 Fevereiro 2012

Lost in Translation


Mozart & the Wale
Tradução: Loucos de Amor

The Holiday
Tradução: O amor não tira férias


I am Sam
Tradução: Uma lição de amor

"Um longo domingo de noivado"
Tradução: Eterno amor

My Girl
Tradução: Meu primeiro amor

English Class



video para Simple Present Tense
daily routine

01 Fevereiro 2012

Natgeo Megacidades: São Paulo


São Paulo gera diariamente 14 mil toneladas de lixo
E joga fora o que outras cidades do mundo veriam como ouro: lixo orgânico


A "alquimia" é feita pelos catadores que "transformam lixo em oportunidades de ouro"


Se a lata de refrigerante é tão nociva assim, por que não a abolimos simplesmente com todo seu conteúdo dentro, já que o refrigerante é um dos outros grandes males da atualidade?



Por que São Paulo ainda não tem um programa de reciclagem, ou seja,
para onde destinarmos claramente o lixo separado?


Cubatão já foi considerada a cidade mais poluída do mundo.


Documentário Ilha das Flores.

04 Janeiro 2012

O jornal, ou o mito da Fátima Bernardes


Anita Ekberg. Fonte Di Trevi. La Dolce Vitta.

Sei que já se passaram alguns dias, mas não me interessam notícias descartáveis. Este fato merece uma reflexão. A saída de Fátima Bernardes do Jornal Nacional. Um mito.

Não é de hoje que o jornalismo deixou de ser imparcial. Se é que algum dia foi, coisa muito difícil mesmo de acontecer. Pois, como se sabe, o simples fato de eleger uma notícia, já significa que se está tomando partido de alguma coisa. Houve um tempo em que os apresentadores de telejornal - não confundir com jornalista - sim, porque eles podem ter saído de qualquer canto, seja de um programa de moda ou de um programa infantil. Há até mesmo uma que saiu do comercial do lactopurga. Mas como ia dizendo, os apresentadores levantavam apenas a sobrancelha, pareciam uns robôs. Hoje não. Neste mundo da performance, eles tem de ser dramáticos - não confundir com drama no sentido de acontecimentos ruins, nem com sensacionalismo. Drama no sentido de teatral (texto auto-explicativo). Ser dramático é o mesmo que ser afetado, e emitir opiniões gestuais.

Basta uma torcidazinha no canto da boca e, pronto, já se entende que ele reprovou a atitude. Mas a modéstia já ficou mesmo pra trás. Agora ele não só torcem o nariz ou a boca, eles falam em alto e bom som: "Esse cara tem que ser preso", "Isso é um absurdo" e coisas que tais. Não é só no sensalista, não. Em todos eles. São os juízes da sociedade. Ora, numa democracia todos tem direito a um julgamento antes de serem condenados, sim, mesmo os estupradores e os políticos. O corpo ainda nem esfriou e o jornalista já está dizendo: "Esse cara tem que ser preso!". Imparcialidade pro espaço - princípio básico do jornalismo. E a alegria com que se dão as notícias do esporte? Sim, porque ele é necessariamente algo bom, um negócio "do bem", nunca, jamais, em tempo algum, se cogita a possibilidade dele ser o ópio do povo, instrumento de alienação geral: "pra frente Brasil, salve a seleção!" 2016 que o diga, e 2014 também. E as compras de fim de ano então? Sempre se apresentam com brilho nos olhos.

Mas a Fátima Bernardes não é desse tempo. Ela é mesmo pouco expressiva. Sabe, incolor, insípida, inodora? Mas ela é legal, sabe? Meu primo foi entrevistado por ela. E ganha bem pra caramba. Todo mundo sabe... E quem ganha bem pra caramba é sempre legal, né, cê sabe? Eu não, eu ganho mal pra caramba. Ninguém sabe. Mas não é por isso que ela "se aposentou", não. Fátima Bernardes e William Bonner formam o casal 20 da televisão. Marido e mulher trabalhando juntos. Costumava ser bem modernoso. Ela é do tempo em que joranlistas-mulheres usavam o cabelo curto. Todas elas, sem exceção. Era o tempo da mulher de tailler, vestida pra trabalhar. A geração da mulher que entrou para o mercado. Mas isso já passou. Agora a mulher é denovo mulher, cabelos longos, volta a usar saias, pulseiras e tudo o mais. as apresentadoras agora são sexys, femininas. E, é claro, jovens. Gostosas, por que não dizer? É, tudo pelo "jornalismo". A "mocinha" do tempo, já viu? Ela desfila roupas, cinturas afinadas. Parece que o tempo é uma coisa importante. Mas é carlo que é! Não vê as enchentes?

Quanto a mim, sou mais a seção de horóscopo. A astrologia acerta mais que a meteorologia. E foi o tempo da Fátima Bernardes, mulher sisuda, séria. Agora é o tempo das moças doces, a do tempo, então, é um docinho de côco. Praticamente apresentadoras de programas infantis. Não estou defendendo a Fátima, não. Aliás, que espetáculo foi aquele da saída dela do Jornal Nacional? Um reallity show (tradução: Big Brother). A jornalista vira a notícia, a entrevistada. Sua vida pessoal passa a importar mais do que a notícia. Isso já havia acontecido desde que ela engravidou, por inseminação artificial, dos trigêmeos e foi parar no Faustão. Aí sim ela representou a mulher do seu século - jornalista, mãe, trabalhadora, produção quase independente. Depois, leva o filho pra piscina, leva o filho pra passear, e vamos integrar as revistas de celebridades. Oprha Winfrey disse que ela é nova Oprah. Todo aquele fudunço pela saída do Jornal Nacional, mais importante do que crise na Europa e a divisão do Pará. É. Dane-se meu baixo sálario. Dane-se a crise na Europa. E se eu não escrevi isso antes, é porque tava fazendo coisa mais importante. Lendo meu horóscopo.



14 Dezembro 2011

Blue eyes



Para quem ainda não conhece, recomendo este exclelente documentário sobre a lógica por trás do racismo nos EUA, iniciativa independente de uma ex-professora. Tem várais partes, no youtube.

13 Dezembro 2011

um cordel sobre o natal

O nascimento de Jesus, um cordel sobre o natal

25 Setembro 2011

O diabo na casa do Big Brother

Imagem do filme Fharenheit 451


A chegada do diabo no bordel do Big Brother
Autor: Marcus Haurélio

Como afirmam os antigos,
“O mundo velho vai mal”,
A televisão tornou-se
Uma imensa bacanal.
E a melhor solução
Nem é trocar de canal.

Programas de baixo nível
Contaminam a telinha.
E o telespectador,
Que há tempos perdeu a linha,
Alimenta a safadeza,
Erva mais do que daninha.

Um programa conhecido,
Faz da putaria escola:
A família reunida
Aos poucos funde a cachola
Vendo um bando de idiotas
Em luxuosa gaiola.

É um tal de Big Brother,
Que quer dizer “Grande Irmão”,
Que em imoralidade,
No mundo é o campeão,
Nunca se viu nem verá
Tamanha depravação.

Lá um bando de “pessoas”
Na casa é trancafiado.
Ao povo cabe escolher
Quem será o eliminado.
E aumentar o ibope
Do programinha safado.

Um tal Pedro “Bilau”
Que apresenta a “atração”,
Até ele se envergonha
De tanta esculhambação,
Porém o “reality – show”
Lhe coube como opção.

Mas um dia eu passeava
Nas velhas ruas de Sampa,
Quando ouvi um pregador
Encostado a uma rampa,
Dizendo que o mundo velho
Pra morrer só falta a campa.

Era um profeta que andava
Pelas ruas da cidade,
Todo coberto de andrajos,
De provocar piedade.
Foi quem narrou esta história
Que afirmou ser verdade:

No programa Big Brother
Tinha sido eliminado
Um monte de parasitas,
Só 7 havia restado.
Eu vou descrever os 7
Do grupo amaldiçoado.

No grupo havia uma moça
Vaidosa, daquele jeito
Muita tinta no cabelo,
Com silicone no peito.
A rapaziada achava
Que era um avião perfeito.

Havia outra “sujeita”
De uma inveja doentia.
Quem olhasse a dita cuja,
No instante pressentia
Que a cupidez habitava
Aquela alma tão vazia.

Outro ocupante da casa
Um sujeito depravado,
Passava o tempo xingando,
Mostrando estar bem zangado,
Disseminava a maldade
E semeava o pecado.

Havia entre os tais brothers
Um indivíduo asqueroso,
Que até mesmo pra pensar,
Mostrava-se preguiçoso.
Vivia batendo boca
Com o cabra rancoroso.

Tinha um outro mão-de-vaca
Sovina, bruto ladrão,
Não cumprimentava alguém
Pra não ter de abrir a mão.
Disse que estava na casa
Pra abocanhar o milhão.

Tinha uma certa senhora,
Às portas da obesidade.
Na gaiola aproveitava
Para fartar-se à vontade.
A gulodice da bruta
Era uma temeridade.

Por último, tinha uma moça
De conduta fescenina.
Era a reencarnação
Da famosa Messalina.
Só esfriava o seu facho
Com os machos na piscina.

Eram a encarnação
Dos pecados capitais
Divulgados nas TVs
Nas tardes dominicais,
Fazendo de cada lar
Um antro de Satanás.

Estes tipos reunidos
Todos eles num lugar
Estimulavam os vícios
Penetrando em todo lar,
Mas se o bem não é eterno,
O mal não pode imperar.

E, sem ninguém saber como,
Lá na casa apareceu
Um sujeito bem vestido,
Que o povo nada entendeu.
Achou que era outro brother,
Mas não era – digo eu!

Era um sujeito moreno,
Com capa verde e com fraque,
Usava grande cartola,
Conservava um cavanhaque.
Quando o zangadinho o viu,
Na hora teve um ataque.

- Quem é você, bonitão?
Messalina perguntou.
- Não foi o Pedro “Bilau”,
Que uma pegadinha armou?
O sujeito respondeu:
- Vou já mostrar quem eu sou.

Eu sou o anjo maldito,
Helel, brilho da manhã,
Sou o príncipe do mundo
Da maldade o talismã.
Porém vocês, obtusos,
Podem me chamar Satã.

Houve um pânico geral,
Com a verdade revelada.
O Pedro “Bilau” correu,
Sem encontrar a estrada.
Quem assistia o programa
Também não entendeu nada.

Naquilo o Senhor das trevas
Conclamou em alta voz:
- Espíritos das Profundezas,
Aqui chamaram por nós.
Pois quem farreia durante
Tem que se ferrar após.

.................................................
Quem assistia ao programa
No momento se assombrou,
Porque o cheiro de enxofre
Pelo mundo se espalhou.
Quem tava em frente à TV
Também se “empesteou”.

Quando acabei de ouvir
A narração do Profeta,
Fiquei tão desnorteado,
Que parecia um pateta.
Porém inda não sabia
Da barafunda completa.

Dizem que quando a tal trupe
Foi conduzida ao inferno,
Lá foi feita uma versão
Desse programa moderno,
Levando a promiscuidade
Pra o reino do mal eterno.

O fato é que Satanás
Não podendo competir,
Foi obrigado a deixar
A cambada escapulir,
Para não ver sua casa
No atoleiro ruir.

Satanás disse: - Danou-se!
Quase pego uma rinite.
Deixo sair estas pragas
Pra que um mal maior se evite,
Pois até mesmo no Inferno,
Safadeza tem Limite
Fonte: Academia Brasileira de Cordel

The virtual revolution (BBC)



The virtual revoltuion: the cost of free. Série da BBC.



"Estamos contribuindo ativamente para vastos dossiês sobre nós mesmos"

 

"Nós ainda nos amontoamos em grupos que confirmam nossa personalidade"


"Quanto mais eu me torno uma pessoa do meu tipo, menos eu sou eu, e mais eu sou um tipo"


"A questão não é apenas quem é o dono da informação, mas quem poderá possuí-la no futuro"

 


A revolução virtual: o custo do gratuito (versão em português)

03 Setembro 2011

Monet: impressionismo em versão digital


Eu adoro esta exposição, por isso não me canso de recomendá-la. Aliás, como já disse, em se tratando de exposições virtuais é difícil superar os franceses. Seus sites de museus e bibliotecas são excepcionalmente bem desenvolvidos a exemplo da exposição “Claude Monet (1840-1926)" realizada no  Grand Palais em 2010 e que reuniu mais de 200 obras do artista, vindas do mundo todo. A exposição passou, ficou o site: Monet 2010 - uma experiência digital única, por paisagens enevoadas, que capta com delicadeza o universo impressionista. Uma realização sensível, em abordagem exemplar, mostrando que a tecnologia é um meio e não um fim. Música de Debussy.

Links: Reunião de Museus Nacionais ; Museu d´OrsayGiverny News ; Marmotan Museu

25 Agosto 2011

As bíblias de Gutenberg

Antes que o alemão Johannes Gutenberg (~1400-1468) introduzisse a tipografia na Europa, não havia algo que se possa comparar com o atual "milagre" do livre acesso. A posse da Bíblia era exclusividade dos religiosos e sua produção levava meses - talvez anos - para ser concluída nos mosteiros. Daí que a verdadeira revolução iniciada por Gutenberg foi a impressão da Bíblia, a Vulgata Latina, que permitiu a posse do livro e sua consequente livre interpretação - já que a impressão por caracteres metálicos já ocorrera na Coréia e na China. Embora a Igreja visse na tipografia uma aliada, e Gutenberg tenha mesmo impresso inúmeras indugências, a invenção foi a pedra fundamental da Reforma Protestante que, não por acaso, viria a ocorrer também na Alemanha.

Sabe-se que foram impressas 180 cópias da bíblia, das quais 49 sobreviveram até hoje, 21 completas sendo 3 em pergaminho. Cinco séculos passados, os incunábulos (livros impressos entre 1450-1500) começaram a ser digitalizados e algumas das "bíblias de Gutenberg" podem ser consultadas aqui: Biblioteca Britânica; Universidade de Cambridge; Biblioteca Nacional da Escócia; Museu Gutemberg; Gutemberg Digital; Biblioteca do Congresso Americano; Harry Ransom Center; Morgan Library and Musem e Keio University.

No Brasil, dois exemplares da Bíblia de Mogúncia (1462), encontram-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Ela é a única no mundo a trazer no colofão os nomes dos 'editores' (no caso os sócios de Gutemberg: Fust e Shoeffer), a data e o local de publicação. É uma edição completa, tem ornamentos em ouro e é uma das 3 sobreviventes em pergaminho (a outra é em papel). É por causa do local, a cidade de Mainz na Alemanha, onde nasceu Gutenberg, que a Bíblia tem este nome, posto que Mainz em latim é Mogúncia. Diz a lenda que os EUA ofereceram um prédio em troca desta raridade, mas a BN não aceitou a oferta.

21 Agosto 2011

Aquarelas do Brasil


Após o grande terremoto que caiu sob Lisboa em 1 de novembro de 1755, seguiram-se um maremoto e um incêndio, que destruiu a Real Biblioteca portuguesa. Quando em 1808, a Corte de Lisboa, pressionada pelas tropas de Napoleão, se transferiu para o Brasil, parte do acervo, remanescente ou reconstituído, da Biblioteca do Rei e da Casa do Infantado, chegou ao Rio de Janeiro. Em 1810, com a segunda invasão, outros livros desembarcaram, totalizando sessenta mil itens. Assim que, graças aos franceses, nasceu a Biblioteca Nacional, fundada em 29 de outubro de 1810. 200 anos passados, parte do acervo, que totaliza 9 milhões de itens, encontra-se digitalizado e disponível para consulta virtual. 

Por exemplo a Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) que contém inúmeros desenhos aquarelados sobre a fauna e flora do país, resultantes da expedição que o naturalista empreendeu pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá - a chamada "Viagem Filosófica". E o raríssimo A História da Próvíncia Santa Cruz a que vulgarmente chamam Brasil, de Pero de Magalhães Gandavo, uma das primeiras descrições do Brasil, de 1576.

20 Agosto 2011

Viver junto

texto: Franklin Leopoldo e Silva

É perfeitamente possível estar junto de outra pessoa sem viver junto com ela, isto é, sem partilhar valores de vida, sem cultivar aspirações comuns, sem esboçar qualquer movimento em direção a uma vida em comum, a uma convivência. Basta olharmos ao redor para verificar que há inúmeros exemplos de como se pode viver em sociedade sem viver em comunidade, e isso vale tanto para grupos sociais menores como a família, quanto para a sociedade em geral.

A razão histórica dessa situação é o individualismo como princípio da vida social, característico da sociedade moderna, que se organiza em torno do indivíduo e de seus direitos naturais, entendendo que a individualidade é a condição natural do ser humano. Nesse sentido, o grupo social seria a agregação de indivíduos com a finalidade de defender de modo mais eficaz os direitos de que cada um é detentor.

Há nisso um contraste com a sociedade antiga e medieval, em que cada um traz em si o lastro comunitário que o liga aos demais, motivo pelo qual os gregos, por exemplo, não concebiam que um humano pudesse viver só. Uma vez que na modernidade desapareceu essa relação intrínseca entre os indivíduos e a cidade, já não podemos dizer que a organização política seja uma comunidade, porque os vínculos que os indivíduos mantêm entre si e com o grupo social são extrínsecos.

O indivíduo moderno não é, essencialmente, cidadão, ou seja, ele não vive intimamente a experiência ética e política de ser como o outro, em termos igualitários, de participar de uma totalidade; apenas segue padrões de democracia formal em relação aos quais não há diferença entre a convivência e a conveniência. Isso tem consequências de grande alcance. Estando o indivíduo no centro do grupo social, é natural que entenda que o interesse próprio deva predominar.

Ele é encorajado pela ideia moderna de que a sociedade progride por via dos empreendimentos individuais, e a busca de satisfação do interesse particular é o que move a todos. Inevitavelmente, ocorre um aprimoramento geral da própria sociedade, ao menos no que diz respeito à produtividade econômica. Mas, para que o interesse próprio possa desempenhar esse papel, ele deve ser transfigurado em critério ético, isto é, valor nuclear do individualismo.

Nas sociedades contemporâneas, altamente complexas, as relações interindividuais devem ser regidas por regras objetivas, para que o individualismo se torne compatível com a sociabilidade. Isso significa que há poucas oportunidades para que a aproximação entre as pessoas se faça por intermédio de movimentos subjetivos, isto é, por via de impulsos de liberdade.

Como as relações devem ser objetivas e sistemicamente reguladas por mecanismos de controle social, tanto o eu quanto o outro se transformam em elementos de uma funcionalidade sistêmica, e os vínculos tendem a ser objetivamente utilitários.

É preciso entender ainda que a sociedade de indivíduos é também uma sociedade de massa. Há indivíduos, mas as diferenças tendem a se anular: os indivíduos são separados, mas homogêneos. Esse aparente paradoxo se explica pelo fato de que a separação é necessária para a manutenção da particularidade individual, mas não há qualquer interesse dos poderes estabelecidos no cultivo de uma individualidade singular, que só viria a se constituir como obstáculo à administração e controle da sociedade como sistema.

Por isso viver em sociedade não envolve solidariedade, que dependeria de movimento interno dos sujeitos sociais, mas simplesmente a observância de padrões de comportamento externo que garantam a justaposição de interesses. Não é por acaso que os teóricos da sociedade política moderna se preocuparam tanto com a questão do contrato como instrumento de regulamentação objetiva da experiência coletiva.

Dentre essas regulações objetivas está a tolerância. Como já está inscrito na própria palavra, trata-se menos de compreender o outro do que de concordar com certas diferenças, desde que essa pluralidade atenda às conveniências de uma sociabilidade relativamente estável. Não significa aceitar o outro; antes, trata-se de relegá-lo à sua solidão, esperando que ele me deixe viver a minha: cada um com as suas crenças, que nos isolam uns dos outros. Esse tipo de tolerância é abstrato porque o outro é objetivado como diferente e não assimilado como uma subjetividade singular.

A solidão numa sociedade massificada encoraja o indivíduo a buscar alívio e abrigo em grupos sectários, nos quais a homogeneidade representa a segurança que não está presente na experiência autêntica da diversidade. Nesses agrupamentos restritos e de convicções predefinidas, vigora um simulacro de solidariedade que, de fato, não é outra coisa senão a uniformidade de pensamento, portanto, a ausência de liberdade.

O outro só é aceitável quando reproduz a minha individualidade e, nesse sentido, viver junto significa a justaposição de unidades em série, como os números. Aquele que é externo à seita, e que afirma outra individualidade em vez de reproduzir a do grupo, não é aceito. Por isso a tolerância é frágil: temos de nos lembrar continuamente de que devemos praticá-la, mas é muito difícil fazê-lo inteiramente.

Os direitos humanos padecem de uma contradição permanente: eles estão na origem das grandes proclamações das revoluções modernas, onde aparecem como princípios fundamentais. Mas a prática nunca foi consistente com a integridade formal dos princípios e, por isso, experimentamos concretamente o antagonismo entre as consequências e as grandes formulações fundadoras da modernidade política. Princípios não são guardiões adequados da dignidade; esta só pode ser preservada se o valor que encerra tornar-se critério concreto da vida em comum.

Por razões análogas, a globalização não aproxima as pessoas. Aliás, seria ingênuo supor que tal motivação estivesse na sua origem. A globalização é uma reengenharia: ela redesenha os contornos externos das sociedades para que todas possam pautar-se pelas mesmas referências de ordem econômica, o que propicia um controle global, mas não uma integração de fato. Aqui também as regras objetivas de administração do sistema prevalecem sobre a realidade das relações entre pessoas ou grupos.

A dificuldade de viver junto é histórica. O ser humano não está essencialmente destinado ao isolamento ou à comunidade. Movido pelas condições objetivas da história vivida, ele, subjetivamente, constrói uma coisa ou outra, isto é, se constitui como indivíduo separado ou como pessoa solidária. Não posso abstrair os fatores objetivamente históricos (sociais, econômicos) que me impelem ao isolamento e até mesmo à hostilidade em relação ao outro, como é próprio de uma sociedade competitiva.

Mas também não estou necessária e fatalmente determinado a me conformar aos modelos de vida que me são oferecidos. A liberdade não é dada; ela se faz num exercício difícil. Viver junto é um exercício de liberdade, e isso é tanto mais verdadeiro quanto mais as condições sociais impõem a perspectiva contrária.

A esperança é de que o indivíduo contemporâneo possa recuperar a condição de sujeito da qual foi destituído no contexto de degradação ético-política nesta fase da modernidade. Para isso é necessário mudar a si mesmo e mudar as coisas, isto é, tornar-se novamente sujeito da sua história e da História, para que seja possível construir outro modo de vida.

É uma atitude de resistência e, em toda resistência, o resultado é duvidoso. Mas, como o outro lado da alternativa é a anulação da consciência, rendida à força das coisas, parece que vale a pena correr o risco.

Franklin Leopoldo e Silva, professor de História da Filosofia Moderna e Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Publicado na Revista E, número 158, junho de 2010.